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Circuit Breakers na Bolsa: Lições de 17 Paralisações

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Circuit Breakers na Bolsa: Lições de 17 Paralisações

Lucas Viana l Consultor Financeiro8 min de leitura

PARA COMEÇAR

A promoção que ninguém quer.

Imagine que você passa no açougue e a picanha que custava R$ 90 o quilo está saindo por R$ 63. O que acontece? Você leva dois quilos, manda mensagem no grupo da família e já começa a pensar em quem vai cuidar da churrasqueira. Agora imagine que uma empresa sólida, que você conhece e cujas ações custavam R$ 90, passa a valer R$ 63 em poucos dias. A reação da maioria das pessoas é o oposto: vender tudo, jurar que nunca mais volta e contar para todo mundo que “a Bolsa é um cassino”. É o mesmo desconto de 30%. A carne não estragou e a empresa não fechou as portas. O que mudou foi o barulho em volta: a manchete, o grupo de WhatsApp, o vizinho assustado. Este artigo usa um dado histórico muito interessante para entender esse comportamento e, principalmente, para mostrar o que o planejamento financeiro tem a ver com isso.

“Toda decisão financeira deve ser baseada em dados, não em emoções.”

ENTENDA O CONCEITO

O disjuntor da Bolsa Sabe quando a luz da casa inteira cai porque alguém ligou o chuveiro, o micro-ondas e a air fryer ao mesmo tempo? O disjuntor não desarmou para estragar o jantar. Ele desarmou para a casa não pegar fogo. A Bolsa brasileira tem um mecanismo com a mesma lógica, chamado circuit breaker. Quando o Ibovespa cai demais em um único dia, a B3 interrompe as negociações por um tempo para que os investidores possam respirar, processar as informações e evitar decisões tomadas no susto.

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Um ponto importante: o circuit breaker é acionado durante o pregão. Em vários dos episódios abaixo, a Bolsa chegou a cair 10% ao longo do dia, o disjuntor desarmou e, no fechamento, parte da queda já tinha sido recuperada. Por isso alguns números da tabela mostram quedas menores que 10%.

OS DADOS

Os 17 apagões desde 1998

Desde 1998, o circuit breaker foi acionado 17 vezes, distribuídas em cinco crises: a Crise Russa (1998), a desvalorização do real (1999), a crise financeira global (2008), o Joesley Day (2017) e a pandemia de Covid (2020). A tabela mostra a variação do Ibovespa no dia e o retorno acumulado nos 12 meses seguintes.

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O QUE OS NÚMEROS MOSTRAM

O resultado chama atenção: em 17 de 17 casos, a Bolsa estava mais alta 12 meses depois do acionamento do circuit breaker. Nenhuma exceção.

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O QUE OS NÚMEROS NÃO MOSTRAM

Aqui mora a diferença entre usar um dado e ser usado por ele.

Antes de concluir que “é só comprar em toda queda”, vale olhar com cuidado para quatro limitações:

■ A amostra é pequena. São 17 eventos concentrados em apenas cinco crises. É um padrão interessante, não uma lei da física.

■ Os retornos são nominais. Eles não descontam a inflação do período. Na desvalorização do real, por exemplo, parte do salto do índice reflete a própria mudança de patamar da moeda.

■ É o índice, não uma ação qualquer. O Ibovespa troca de composição ao longo do tempo. Muitas empresas individuais nunca recuperaram o valor que tinham antes de uma crise.

■ O fundo quase nunca é o primeiro dia. Em 2008, o disjuntor desarmou cinco vezes em menos de um mês. Em 2020, foram cinco vezes em apenas oito pregões. Quem colocou todo o dinheiro na primeira queda viu o preço cair mais antes de subir.

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COMPORTAMENTO

Por que vendemos no pior momento?

Se os dados são tão claros, por que tanta gente vende justamente no dia do circuit breaker? Porque essa decisão não acontece na planilha. Ela acontece no cérebro, e o cérebro tem alguns atalhos que funcionam muito bem para fugir de um leão e muito mal para investir.

■ Aversão à perda. A dor de perder R$ 1.000 é sentida com muito mais intensidade do que a alegria de ganhar os mesmos R$ 1.000. Ver o patrimônio encolher na tela ativa o modo “fuja”.

■ Efeito manada. Quando todo mundo corre para a saída, ficar parado parece burrice, mesmo quando é a decisão mais racional.

■ Viés do presente. A queda de hoje parece eterna. É difícil imaginar o cenário de daqui a 12 meses quando a manchete grita agora.

No futebol, isso tem nome: é o torcedor que levanta aos 30 do segundo tempo, com o time perdendo de 2 a 0, para fugir do trânsito. Quando o time vira, ele fica sabendo pelo rádio do carro. O problema não é sair do estádio. O problema é sair sem saber por que entrou.

VISÕES DE PLANEJAMENTO

O que separa quem espera de quem vende.

Se o comportamento é o problema, a solução não é “ter sangue frio”. Sangue frio não se compra e, na hora da crise, quase ninguém tem. A solução é tomar as decisões antes, com calma, quando a casa ainda está com a luz acesa. É exatamente isso que um planejamento financeiro faz.

Abaixo, seis pilares que fazem essa diferença:

  1. Reserva de emergência: o que permite ficar no açougue Quem gasta o dinheiro do mercado do mês na picanha em promoção passa o resto do mês comendo miojo. Nos investimentos é igual: quem não tem reserva vira vendedor obrigatório. Não vende porque quer, vende porque precisa pagar a escola, o aluguel ou um imprevisto, e muitas vezes no pior dia possível. Como referência, a reserva costuma ser dimensionada em cerca de 6 meses de gastos para quem tem renda CLT, até 12 meses para quem tem renda variável ou empresa própria e cerca de 3 meses para quem tem estabilidade, como servidores concursados. Ela fica em aplicações de liquidez diária e baixo risco, como CDBs com liquidez diária, Tesouro Selic e fundos conservadores. A poupança, historicamente, rende abaixo da Selic e muitas vezes abaixo da inflação.

  1. Cada dinheiro tem um prazo: No churrasco, ninguém coloca o pão de alho e a costela no mesmo tempo de grelha. Cada coisa tem o seu ponto. Com o dinheiro funciona igual: o que será usado em até dois anos (a viagem, a troca do carro, a entrada do imóvel) não deveria estar exposto à renda variável. Uma queda de 15% num dinheiro que tem data marcada não é oscilação, é objetivo adiado. Separar os recursos por objetivo e por prazo é o que permite olhar para uma queda da Bolsa e pensar: “isso aqui é dinheiro para daqui a dez anos, não muda nada no meu mês”.

  1. Seu perfil de risco é o da crise, não o da alta : Na alta, todo mundo se descobre arrojado. O verdadeiro perfil aparece quando a carteira cai 20% numa semana. Um bom processo de suitability não pergunta apenas quanto você quer ganhar, mas quanto você aguenta ver cair sem mudar de ideia. Uma carteira que você abandona no meio da crise é, na prática, pior do que uma carteira mais conservadora que você consegue manter.

  1. Comprar aos poucos, com regra definida antes: Como o fundo raramente é o primeiro dia, tentar acertar o momento exato é como tentar adivinhar o minuto do gol. Aportes parcelados e regras de rebalanceamento definidas com antecedência tiram a emoção da decisão. Por exemplo: definir uma alocação-alvo entre renda fixa e renda variável e, quando a queda desequilibrar essa proporção, reequilibrar aos poucos, em parcelas, em vez de tudo de uma vez.

  1. Proteção vem antes da rentabilidade : Crises de mercado raramente chegam sozinhas. Em 2020, a queda da Bolsa veio junto com perda de renda, redução de jornada e problemas de saúde em muitas famílias. Seguros de vida, de renda e patrimoniais bem dimensionados são o que impede que um problema pessoal se transforme em venda forçada de investimentos.

  1. Diversificar é não depender de uma única carne : Os dados deste artigo falam do Ibovespa, um índice com dezenas de empresas. Quem concentra tudo em uma ou duas ações não tem a mesma garantia de recuperação. Diversificar entre classes de ativos, setores e prazos é o que faz uma crise ser um tropeço, e não uma queda definitiva.

PARA REFLETIR Antes do próximo pânico

Em vez de terminar com uma receita pronta, deixo algumas perguntas.

Responder a elas com sinceridade vale mais do que qualquer previsão sobre a Bolsa.

1. Se a Bolsa caísse 20% amanhã, sua primeira vontade seria vender ou comprar? E o que justifica essa vontade?

2. Quantos meses você conseguiria pagar todas as contas sem resgatar nenhum investimento?

3. Você sabe dizer, para cada ativo da sua carteira, por que comprou e para qual objetivo ele existe?

4. Algum dinheiro com data marcada para os próximos dois anos está hoje em renda variável?

5. Se sua renda parasse por seis meses junto com uma queda da Bolsa, o que aconteceria com seus investimentos?

6. Na próxima promoção da Bolsa, você vai estar no açougue ou fugindo dele?

“A crise não avisa quando chega. O planejamento é o que avisa você antes dela.”


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